Crianças de Gaza expostas ao perigo das munições que não explodiram

Um obus sem explodir perto de uma criança sentada na areia próxima a um acampamento provisório para palestinos deslocados em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, em 30 de maio de 2024Eyad BABA

Eyad BABA

A guerra deixou Gaza cheia munições que não explodiram que demorarão anos para serem retiradas. As crianças, atraídas por essas “coisas raras”, se aproximam dos artefatos e ficam mutiladas ou, até mesmo, morrem ao tentar recolhê-las.

“Atualmente, perdemos duas pessoas por dia vítimas de munições que não explodiram. A maioria são crianças que não têm escola”, explica à AFP Nicholas Orr, um ex-destruidor de minas britânico que acabou de voltar de Gaza, onde esteve junto à Handicap International.

As crianças estão especialmente expostas porque brincam entre os escombros de edifícios bombardeados. “Eles ficam entediados, correm por todos os lados, encontram algo estranho e brincam com isso”, detalha.

Isso aconteceu com Ahmad Azzam, de 15 anos, que perdeu uma perna devido a um artefato explosivo abandonado nas ruínas de sua casa, quando voltava ao seu lar em Rafah, no sul.

“Inspecionávamos o que restava da casa e havia um objeto suspeito,. Não sabia o que era quando de repente explodiu”, relata. Ferido em várias partes do corpo, uma de suas pernas teve que ser amputada.

Como muitos palestinos, havia voltado aproveitando a frágil trégua, que já foi rompida.

Orr diz que as crianças são mais vulneráveis, já que algumas munições “atraem e elas gostam disso”.

Os bombardeios israelenses foram retomados em 18 de março e há poucos dados disponíveis sobre a quantidade de munições que não explodiram no território.

– Brincar com fogo e com a sorte –

O serviço de luta contra minas da ONU (UNMAS, na sigla em inglês) alertou em janeiro que “entre 5% e 10%” das munições disparadas sobre Gaza não explodiram, estimando que a descontaminação poderia levar 14 anos.

As munições que não explodiram são visíveis por todos os lados, diz Alexandre Saieh, da ONG britânica Save the Children, que opera em Gaza.

“Quando nossas equipes vão ao terreno veem munições sem explodir. A Faixa de Gaza está literalmente cheia delas”, afirma.

Para as crianças que perdem um membro nas explosões “a situação é catastrófica porque precisam de cuidados especializados a longo prazo e é simplesmente impossível em Gaza”, ressalta.

No início de março, Israel impôs um bloqueio sobre a ajuda que entra no território. O material para próteses acabou e para aqueles que foram amputados, é uma perda de mobilidade a longo prazo, lamenta.

No norte, onde os combates terrestres foram intensos durante meses, o tipo de munição sem explodir costuma ser de “morteiros, granadas e muitas balas”, destaca Orr.

Em Rafah, onde os ataques aéreos foram mais intensos, “são projéteis de artilharia, ou caídos do céu”, alguns dos quais pesam dezenas de quilos.

Orr não foi autorizado a realizar operações de remoção de minas em Gaza para evitar o risco de ser confundido pela vigilância aérea israelense com alguém que tentava refabricar armas a partir de munições sem explodir.

As mensagens de prevenção demoram muito a chegar e é difícil saber qual munição está em risco de explodir ou não. Alguns moradores acreditam que podem se desfazer delas vendo outros movê-las, mas o risco é enorme.

“É brincar com fogo e com a sorte”, conclui.

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