Vítima fala pela 1ª vez sobre condenação de pediatra por estupro: ‘Como se um pouquinho de mim tivesse se libertando’


Ao g1, ela relembra traumas e como as violências foram aumentando aos poucos: ‘Quando a gente denuncia esses crimes, não é só por nós, é por outras pessoas também’. Pediatra, que soma 14 anotações criminais, foi condenado a 7 anos de prisão; defesa nega e vai recorrer. O médico Raphael Derossi Ribeiro da Silva
Reprodução
A ex-companheira do pediatra Raphael Derossi Ribeiro da Silva, que foi condenado a 7 anos de prisão no regime semiaberto por estupro, afirmou que a decisão da Justiça do Rio tem contribuído para o processo de cura após a violência que sofreu.
Em entrevista ao g1, a primeira desde que ele foi condenado, no último dia 20, ela relembrou momentos traumáticos e como foi o ciclo da violência no relacionamento.
“É um turbilhão. Já tem anos, mas ainda são feridas muito recentes”, afirma a vítima.
A mulher denunciou o ex-companheiro, com quem viveu por 2 anos e meio, por violência psicológica e quatro episódios de estupro – em três das acusações, ele foi absolvido, e em um caso ele foi condenado, no último dia 20.
A defesa de Raphael nega todas as acusações, e afirmou que vai recorrer da condenação (veja a íntegra no fim da reportagem).
No julgamento, a violência psicológica nem chegou a ser considerada porque a resolução que tornou a prática crime foi implementada depois do fim do relacionamento do casal. Dessa forma, ele não poderia ser julgado por algo que fez antes que se tornasse crime, como explica a defesa da vítima, representada pela advogada Érica Olivieri.
Com o início do relacionamento, pouco depois ele a convidou para morar com ela, justificando que seria melhor do que ela pagar aluguel. Para a vítima, foi nesse momento que o controle dele passou a ser maior.
“Eu comecei a trabalhar, ele me tirou do trabalho, não gostava das pessoas que eu conhecia lá, meus colegas, porque tudo tinha alguma coisa. Uma amiga não prestava porque ela é solteira, essa daqui não prestava por outro motivo, eu não tinha ninguém”, relata.
Com o tempo, a moça diz que foi impedida de ter redes sociais e que quase não conseguia entrar em contato com a família – que morava a mais de 60 km de distância.
“Eu não tinha referência, eu não tinha ninguém que falasse: ‘Opa, tá errado, não é assim’. Tanto que eu tive que fazer psicólogo, para a psicóloga me falar isso. Para ela falar: ‘Opa, tem alguma coisa errada’.”
LEIA TAMBÉM:
Mulher que acusa pediatra de estupro diz que ele controlava até o seu peso
Pediatra preso por dopar e estuprar companheira cometeu agressões e humilhações, diz denúncia do MPRJ
A mulher conta que, enquanto estava na sessão com a terapeuta e não respondia às mensagens dele, Raphael começava a ligar para a profissional para se certificar de que ela estava mesmo no consultório. A mesma dinâmica se repetia quando ela ia para a faculdade.
“Ele sempre falava que tinha gente me vigiando, que tinha câmera em casa para me ver, que nos lugares as pessoas me vigiavam para ele. Nessa época eu já era uma marionete e só obedecia, porque senão seria pior”, relata.
Em dezembro de 2018, em uma viagem para a Grécia, a vítima conta que foi abusada sexualmente depois de ser dopada com um ansiolítico após uma briga. As testemunhas de defesa apresentadas por Raphael no julgamento, que estavam na viagem, disseram que não perceberam mudança no comportamento dela. Ele foi absolvido dessa acusação.
O médico Raphael Derossi Ribeiro da Silva chegou a ser preso em 2023
Reprodução
Da viagem da Grécia até o fim do relacionamento, a vítima conta que o ciclo de violência se intensificou.
“A mudança dele era muito brusca. Vinha com um xingamento e um ‘me perdoa, eu te amo’. Ele ficou nessa sequência verbal, ofensas sempre de p***, vagabunda, nesse nível, e depois pedia desculpa e colocava a culpa em mim”, relata.
“Depois da violência verbal, vinha grito. Ele ficou barulhento, e aí começou de fato a empurrar, puxar, ofender. E aí ele já não pedia desculpa, já não tinha motivo, até que um dia ele achou graça”, conta.
A mulher relembra que ele a coagiu dizendo que não adiantaria denunciar.
“Até o fato de um dia ele, além de falar tudo, de me bater, ele ainda riu da situação. E falou assim: ‘Você quer o quê? Você quer que a gente vá na delegacia? Eu vou se você quiser’. Ele falava que nada ia acontecer com ele por ser médico, ter família de médicos, e isso garantiu ele por muito tempo.”
Depois, ela relatou que foi abusada novamente em Punta Cana em um quarto de hotel durante uma conferência de médicos. O pediatra também foi absolvido desta acusação depois de apresentar testemunhas de defesa que disseram que não ouviram gritos nem a viram machucada, tampouco notaram mudança no seu comportamento.
A condenação
O último episódio – e o que gerou a condenação – foi em outubro de 2020. Para ela, foi também “a pior vez”.
“Foi quando ele me chutou, me bateu, me levou inconsciente para o chuveiro. Lá, tinha uma despensa e eu me tranquei lá para ele não me pegar. Mesmo assim, ele quebrou e me puxou, até que eu desmaiei. Eu lembro de flashes. Eu toda ensanguentada, machucada, e ele me estuprou mesmo assim.”
A vítima tirou foto dos machucados e enviou para uma amiga. O juiz usou essas fotos como prova para a condenação, além do testemunho desta amiga.
Veja a reportagem da prisão de Raphael, em 2023:
Pediatra é preso por estupro e agressão contra a companheira, que foi dopada com calmantes
14 anotações criminais
Para ela, é triste que tenha chegado a esse ponto para que o pediatra fosse responsabilizado. Raphael acumula outras 14 anotações criminais, todas de delitos contra pelo menos 6 mulheres – estupro, lesão corporal, ameaça e injúria.
“Eu fico triste que teve que esperar o meu caso, mas eu fico muito feliz que algo aconteceu. Eu lembro nitidamente do Raphael, dentre essas agressões, falar para mim: ‘você não é ninguém. Quem que você pensa que você é? Em quem você acha que eles vão acreditar?’. Tudo isso para que eu nunca tivesse coragem de denunciá-lo. E hoje eu consegui fazer essa denúncia, a gente conseguiu provar”, desabafa.
“A gente conseguiu que um monte de meninas que também foram vítimas dele fossem na delegacia, coisa que a gente nem acreditou que a gente fosse conseguir.”
A moça conta que ficou estarrecida ao ouvir o relato de uma outra mulher que tinha sido vítima muitos anos antes.
“Ela descreveu o que aconteceu. Foi há muitos anos, mas ela fala: ‘aquele dia eu nunca vou esquecer’. É um trauma que fica para sempre”, lamenta.
A vítima afirma que, quando descobriu a existência de outras mulheres na mesma situação, “viu que sozinha não ia conseguir, não ia dar em nada, seria só mais um boletim de ocorrência”.
“Quando eu o denunciei, o meu caso só teve peso por conta do histórico dele. Olha quantas mulheres precisaram passar por isso para ele ser denunciado. Imagina se ninguém tivesse tido a coragem. Imagina se o meu fosse o primeiro. Ninguém ia acreditar em mim. Então, quando a gente denuncia esses crimes, não é só por nós, é por outras pessoas também que vão passar por aquilo”.
Ela diz que expor a situação, mesmo sendo doloroso, ajudou a aliviar a dor do trauma.
“Foi como se um pouquinho de mim tivesse se libertando, sabe? Porque é muito difícil falar isso tudo. Eu ainda tenho essa mulher aqui também, que chora, que tem esse trauma, e cada vez que eu falo sobre ele, é como se eu tivesse me curando só um pouquinho, sabe? Ver essa justiça me dando força para que eu consiga falar com outras pessoas para que também tenham força de denunciar”, acrescenta.
Para ela, é sinal de que “a história foi ouvida” e que isso “dá um conforto para alma muito grande”. E ela incentiva outras vítimas, de qualquer natureza, a procurarem seus direitos:
“Não tô pedindo para ninguém se expor. Mas eu tô pedindo para todo mundo fazer por cidadania mesmo, sabe? Para outras pessoas terem coragem de fazer essa denúncia”, completa.
O que diz a defesa
Veja a integra da nota da defesa de Raphael:
“A defesa de Raphael repudia a publicidade de caso que corre em segredo de justiça e informa que serão devidamente apuradas as circunstâncias em que acabou vazado para a imprensa. Sobre a afirmação encaminhada ao signatário, de que nova matéria sairia no fim de semana, utilizando uma troca de mensagens, esclarecemos que se referem a uma das acusações já afastadas pela magistrada, acolhendo manifestação do próprio Ministério Público. A sedizente vítima somente efetuou o registro de ocorrência mais de três anos após o suposto fato e não se submeteu ao exame de corpo de delito. O próprio Ministério Público (e também o assistente de acusação, que apenas ratificou a manifestação final do órgão acusador) afirmou nos autos que, em relação a acusação relacionada às mensagens, a palavra da vítima não se revestia de credibilidade: “Pelo que se percebe, no dia XX de maio de 2018, o casal já se conhecia e eles já tinham se relacionado sexualmente, de modo que não é possível se considerar que, neste dia, tenha ocorrido o fato descrito na denúncia”. Adiante, afirma textualmente: “… as palavras da vítima foram abaladas por outros elementos probatórios nos autos” e “… as provas juntadas aos autos foram aptas a abalar a presunção de veracidade de suas palavras”. Das quatro absurdas e infundadas acusações, três delas já foram afastadas pelo próprio órgão ministerial, pelo assistente de acusação e pelo juízo monocrático, sendo que a defesa da última será exercida estritamente nos autos e não na imprensa, pois falece a mesma a isenção e imparcialidade necessária para apreciação do caso. Decorrido mais de dois anos da deflagração da ação penal causa espécie à defesa o assunto ser novamente requentado na imprensa.”
Bookmark the permalink.