Trabalhador que foi preso por engano no Paraná por homicídio pediu ajuda à filha por bilhete: ‘Eu não devo nada, você sabe disso’


Darci Rodrigues de Lima ficou 30 dias detido no Paraná devido a erro em mandado de prisão expedido no Mato Grosso para condenado que tem o mesmo nome que ele. TJMT afirma que vai abrir procedimento interno para apurar erros e aplicar responsabilizações. Darci escreveu um bilhete pedindo ajuda
Reprodução/RPC
Darci Rodrigues de Lima, trabalhador autônomo de 53 anos que passou 30 dias preso por engano em Prudentópolis, nos Campos Gerais do Paraná, após um erro na expedição de um mandado de prisão, pediu ajuda à filha escrevendo um bilhete de dentro da cadeia.
À RPC, ele contou que não lembrava do telefone dos filhos, e por isso só conseguiu contato com a família 15 dias depois. O homem entregou o bilhete para a companheira de outro preso, que procurou a família dele.
“Bom dia, minha filha, peço um favor de coração, pra você arrumar um advogado. Por favor, filha, porque eu não devo nada, você sabe disso. Eu não quero ficar aqui sem eu dever. Eu saindo daqui, eu pago vocês. Deus abençoe filha, o pai ama vocês”, dizia o bilhete. Veja acima.
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Darci tem os mesmos nome e sobrenome de uma pessoa condenada na Justiça de Mato Grosso por tráfico de drogas e homicídio. Quando o mandado de prisão foi expedido, o Tribunal de Justiça daquele estado incluiu, erroneamente, o RG, o CPF e o nome dos pais da pessoa inocente. Entenda mais a seguir.
A filha dele, Agnes Rodrigues, conta que nem sabia que o pai estava preso até receber o bilhete. A família foi até o Fórum da cidade, mas não conseguiu a soltura do homem.
“Já passava de uma semana que ele estava preso quando a gente recebeu a primeira carta. Aí eu entrei em contato com as meninas lá do Fórum, pra saber alguma notícia, porque até então ninguém tinha procurado a gente e a gente nem sabia que ele estava preso. Elas demoraram alguns dias pra responder e depois falaram que o pai estava preso há alguns dias e que era pra gente procurar na delegacia pra saber a respeito, porque provavelmente ele já tinha sido transferido, porque já havia sido condenado”, conta.
O outro filho de Darci, Francisco de Lima Rodrigues Neto, destaca que o maior estranhamento da família foi ele ter sido preso por uma condenação no Mato Grosso, sendo que o trabalhador nunca viajou para fora do Paraná.
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Em nota, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) disse que vai abrir procedimento interno para apurar erros e aplicar responsabilizações.
“A assessoria de imprensa da Corregedoria do Tribunal de Justiça do Mato Grosso, informa que o corregedor-geral da Justiça do TJMT, desembargador José Luiz Leite Lindote, assim que soube do caso pelo contato da imprensa, solicitou a abertura de um procedimento interno para apurar se houve erro e onde este erro ocorreu, a partir de indícios do processo. Após a apuração, as devidas responsabilizações serão aplicadas”, diz o texto.
Homem preso por engano deixa a cadeia
Homem foi defendido por advogado que soube do caso enquanto atendia outros presos
Darci foi preso no dia 26 de fevereiro e foi solto apenas na última sexta-feira, 28 de março, após conseguir um habeas corpus junto à Justiça do Mato Grosso.
O pedido foi feito pelo advogado Leonardo Alessi, que atendia outros presos quando soube do caso e acessou o processo que originou o mandado de prisão.
“Nós estávamos fazendo as visitas mensais à cadeia pública aqui do município de Prudentópolis quando nos deparamos com a situação do seu Darci. Inicialmente, alguns clientes tinham nos relatado a situação dele e nos chamou atenção desde o início, porque ele negava que passou pelo estado de Mato Grosso e dizia que em momento algum respondeu uma ação penal naquele estado”, detalha o advogado.
Com isso, Alessi descobriu que a falha foi do Tribunal de Justiça de Mato Grosso na hora da expedição do mandado.
“A ação penal inicialmente foi proposta em face de um Darci, com CPF, naturalidade, filiação totalmente distintos do Darci que estava preso. Fazendo essa checagem e conflitando com os dados do seu Darci que estava preso, nós chegamos à conclusão de que se tratava da pessoa errada”, explica.
O habeas corpus, assinado pelo juiz Rafael Depra Panichella, detalha que o mandado de prisão foi expedido em nome de uma pessoa diferente da envolvida no processo.
“Analisando os referidos autos criminais, constatou-se que a guia de execução penal acerca da aludida condenação restou expedida em face de pessoa diversa e estranha do processo”, afirma o documento.
Darci foi preso enquanto trabalhava
Darci Rodrigues de Lima, de 53 anos, passou 30 dias preso por engano em Prudentópolis
Eduardo Andrade/RPC
A prisão aconteceu na rodoviária de Prudentópolis, em 26 de fevereiro. Darci estava trabalhando quando foi abordado por policiais.
“Eu estava limpando um terreno, quando cheguei na rodoviária para tomar uma água e chegou a viatura. Eles falaram: ‘Faz favor, vem aqui, você está preso’. Eu falei: ‘Mas preso de que jeito? Meu Deus do céu. Eu só ouvi falar em Mato Grosso, mas não conheço nada’. É uma tristeza, tristeza mesmo. Deus o livre”, desabafa.
Darci foi levado para a delegacia e, depois, para a Cadeia Pública de Prudentópolis.
Alívio
Já em casa, com a família, Darci conta que está aliviado, mas que não esquece do que passou.
“Pensa em um sofrimento. A gente nunca passou por uma coisa dessa: dormir tudo empilhado, um por cima do outro. É uma tristeza”, afirma.
O sentimento é compartilhado com os familiares. Entre eles, a filha Agnes Rodrigues, destinatária do bilhete que ajudou a tirar o pai da prisão.
“É bem triste mesmo. Quando a pessoa deve, ainda vai, né? Mas ficar lá sendo inocente, cumprindo pena de uma outra pessoa, é bem difícil”, desabafa a filha.
Darci reunido com a família
Eduardo Andrade/RPC
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