Estagiária da Justiça articulava vazamentos para o PGC em grupo de WhatsApp com a família

A estagiária da Justiça Federal, que foi presa em fevereiro por acessar informações sigilosas e beneficiar faccionados, contou com ajuda de familiares no esquema criminoso. A reportagem do ND Mais apurou que a organização do esquema era feita por meio de um grupo de WhatsApp, composto pela jovem, os comparsas e outras pessoas interessadas em beneficiar membros de uma organização criminosa de Florianópolis.

Foto de viatura da polícia civil, em frente ao endereço onde estagiária da Justiça foi presa

Estagiária da Justiça Federal estava no 8º semestre de direito quando foi presa – Foto: PCSC/ND

Segundo a investigação da Draco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado), o núcleo investigado auxiliou outra estudante de direito a facilitar a fuga de alvos de uma operação policial que buscava, em 2024, prender lideranças do tráfico de drogas em Florianópolis. A universitária, que fazia estágio na Justiça estadual, em uma vara da família no norte da Ilha, foi presa em agosto daquele ano.

Estagiária da Justiça teve auxílio da família para ajudar criminosos

A segunda fase da operação sobre vazamento de dados sigilosos foi desencadeada na terça-feira (1º) e prendeu duas pessoas, em flagrante, por tráfico, associação ao tráfico e porte de acessório de uso permitido, um carregador de pistola 380. Os presos são uma mulher, formada em direito em março deste ano, e o namorado dela.

Policiais civis armados durante operação policial

Policiais cumpriram mandados de busca e apreensão em Florianópolis, Biguaçu e Navegantes nessa terça-feira (1º) – Foto: PCSC/Divulgação/ND

A detida, segundo a Draco, é tia da estagiária da Justiça presa em fevereiro pela Polícia Civil. Segundo a polícia, a familiar se formou em direito em março de 2025. Ela, o companheiro, um tio da universitária e o pai da jovem são investigados por participarem do vazamento de informações sigilosas, ocorrido em 2024, que desmantelou 90% de uma operação policial.

A ofensiva cumpriu cinco mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao grupo, nas cidades de Florianópolis, Biguaçu e Navegantes. Foram apreendidos um carro, uma motocicleta, drogas e dinheiro em espécie.

Família trocava informações em grupo secreto de WhatsApp

O inquérito policial já identificou cinco pessoas envolvidas no esquema de vazamento de informações. Todos são investigados por participação em organização criminosa, associação para o tráfico e violação de sigilo funcional. Além dos alvos da ofensiva, a Polícia Civil trabalha para identificar outras oito pessoas, que integravam o grupo sigiloso de troca de mensagens.

“A família tinha um grupo no WhatsApp onde trocavam informações sobre pessoas de interesse deles. O grupo tinha 13 pessoas, a tia e a estagiária eram as pessoas mais ativas do grupo”, revelou à reportagem do ND Mais, o delegado responsável pelo caso, Antonio Claudio Seixas Joca.

Segundo a investigação, a estagiária da Justiça e mais quatro usavam o grupo para monitorar procedimentos referentes a narcotraficantes do interesse deles e trocar informações. “Um dos indivíduos [monitorados] está preso, outro foi alvo de mandado nessa terça, já foi preso por tráfico de drogas e é tio da estagiária”, detalhou Joca.

Primeira fase da operação Tio Patinhas foi desencadeada em abril de 2024 - PCSC/ Divulgação/ ND

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Primeira fase da operação Tio Patinhas foi desencadeada em abril de 2024 – PCSC/ Divulgação/ ND

Cerca de 15 quilos de maconha foram apreendidos pela polícia civil em cumprimento de mandados da operação Tio Patinhas - PCSC/ Reprodução/ ND

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Cerca de 15 quilos de maconha foram apreendidos pela polícia civil em cumprimento de mandados da operação Tio Patinhas – PCSC/ Reprodução/ ND

Estagiária da Justiça Federal foi capturada no bairro Ingleses, no norte da Ilha - PCSC/ND

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Estagiária da Justiça Federal foi capturada no bairro Ingleses, no norte da Ilha – PCSC/ND

Casal foi preso por envolvimento em vazamento de informações de operação da Polícia Civil de Santa Catarina - PCSC/ Divulgação/ ND

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Casal foi preso por envolvimento em vazamento de informações de operação da Polícia Civil de Santa Catarina – PCSC/ Divulgação/ ND

A tia da estagiária da Justiça, presa na terça-feira, não tinha antecedentes criminais. O tio da jovem, que era monitorado no grupo, tem passagens policiais relacionadas ao tráfico, enquanto o pai dela tem indicativo de participação na organização criminosa investigada, o PGC.

Entenda o caso

Em 2024, a Polícia Civil de Santa Catarina realizou a segunda fase da Operação Tio Patinhas, em combate ao tráfico de drogas na capital e Grande Florianópolis. À época, foram expedidas 72 ordens judiciais, entre mandados de busca e apreensão, e sequestro de bens, para 45 investigados. No dia da ofensiva, apenas cinco deles foram localizados.

A Draco descobriu que detalhes da operação foram repassados aos criminosos e, por isso, os suspeitos não foram localizados. Com a quebra de sigilo de dados, a PCSC identificou que uma ex-estagiária havia acessado os autos da investigação inúmeras vezes. A jovem não agiu sozinha e contou com apoio de outra estagiária da Justiça.

A segunda universitária investigada teria conhecido a primeira quando ambas estagiavam em uma Vara de Família da Justiça estadual. Ela acessou, indevidamente, processos sigilosos de, pelo menos, três delegacias especializadas em investigações do tráfico de drogas e organizações criminosas, enquanto atuava na Justiça estadual. Os casos envolviam criminosos associados a facções criminosas.

Pouco depois, ela começou outro estágio, mas na Justiça Federal em Santa Catarina. O ND Mais contatou a comarca, à época, e foi informado que “o perfil de usuário afeto a estagiários não permite o acesso a processos sigilosos, tais como operações policiais em curso”. Segundo a Polícia Civil, não houve prejuízo no âmbito federal e ela teve o contrato suspenso. A jovem teve a prisão temporária de 30 dias decretada em fevereiro. A medida foi prorrogada por mais 30 dias.

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