Evoca Elis, às vezes ‘baixa’ Clementina, mas é Ilessi no exuberante mergulho na cena do show ‘Atlântico negro’


Ilessi conquista o público carioca na cena ritualística do show ‘Atlântico negro’
Rodrigo Goffredo
♫ OPINIÃO SOBRE SHOW
Título: Atlântico negro
Artista: Ilessi
Data e local: 27 de março de 2025 no Teatro Rival Petrobras (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ Em 20 de novembro de 2024, Dia da Consciência Negra, Ilessi aportou com Atlântico negro, álbum que carrega exuberante carga de ancestralidade afro-brasileira. O disco da cantora e compositora carioca se impôs instantaneamente como um dos grandes lançamentos fonográficos do ano passado.
Na noite de quinta-feira, 27 de março, Ilessi confirmou a exuberância do álbum ao fazer a travessia de Atlântico negro para o palco em show apresentado no Teatro Rival Petrobras, espaço de resistência cultural da cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Com requinte perceptível em cena na luz de Fernando Nicolau (também responsável pela direção cênica), na cenografia de Fábio de Souza e no figurino criado pelo mesmo Fábio de Souza com Luana Maria, bem como na arregimentação do poderoso trio formado por Marcelo Galter (piano, teclados, arranjos e direção musical), Ldson Galter (contrabaixo) e Reinaldo Boaventura (percussão), Ilessi (voz e violão) extasiou o público que encheu o teatro carioca para assistir a um show de natureza ritualística.
Ilessi no palco do Teatro Rival Petrobras na estreia do show ‘Atlântico negro’
Rodrigo Goffredo
Seguir com Ilessi na travessia do show Atlântico negro foi tarefa prazerosa que exigiu profundo amor pela música, pois, em sintonia com o espírito do disco, o roteiro do show abriu mão de canções cantaroláveis, exceto Caso você case (1976), música de Vital Farias (1943 – 2025) lançada pela cantora Marília Barbosa na trilha sonora da novela Saramandaia (TV Globo, 1976) e revivida por Ilessi no bis em dueto afetivo com a mãe, Sebastiana, a Dona Tiana.
Aberto com récita do texto Irê ayó e o espelho da verdade, história mística adaptada pela escritora e historiadora Vanda Machado, o roteiro expôs logo a carga trazida da África por Atlântico negro quando Ilessi entrou em cena para cantar dois temas de Luizinho do Jêje, Oxum (Ora ie ie ie) e Oxum (Oxum bai le ô), condensados no disco em forma de medley.
Nesse número inicial e em outros que se seguiram ao longo de uma hora e meia de show, a dança de Ilessi potencializou a força do canto da artista, pondo em evidência a importância da direção de movimento de Aline Valentim, também responsável pela preparação corporal da cantora.
E que cantora! Em cena, a postura e a emissão vocal de Ilessi – tão densa quanto límpida – evocaram o canto de ninguém menos do que Elis Regina (1945 – 1982) em músicas como o samba Omulu (Ilessi, 2024) e a canção Trastevere (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1975). Como no disco, Trastevere aparece colada no show com Cobra coral (Marcelo Galter, 2024), afro-jazz que expôs a total interação da cantora com os músicos.
Ilessi toca violão no show ‘Atlântico negro’ quando canta música composta em parceria com Iara Rennó, ‘Ávida’
Rodrigo Goffredo
Entre parcerias com Iara Rennó (Ávida, apresentada no álbum Atlântico negro) e Camila Farias (Jarina, expressiva música prestes a ganhar registro fonográfico oficial, mas já disponível na internet em gravação caseira de 2021), Ilessi fez Clementina de Jesus (1901 – 1987) baixar no palco do Teatro Rival Petrobras quando deu voz a Cativeiro de Iaiá e a Evém o Nego Paturi, temas tradicionais de Nego Fugido, manifestação cultural de Acupe, distrito do município baiano de Santo Amaro da Purificação (BA).
Como a Bahia foi o primeiro porto da espiritualidade afro-brasileira, Ilessi acertou ao conduzir o show e o disco Atlântico negro sob a direção musical de Marcelo Galter, grande pianista e arranjador nascido em Salvador (BA), polo da ancestralidade que banhou o show, também incrementado com a participação do cantor e guitarrista fluminense Caxtrinho, talento da nova geração indie do Rio de Janeiro.
Já o baticum inebriante do percussionista Reinaldo Boaventura se impôs na parte final do show e soou tão forte como se estivesse no palco toda uma orquestra afro-brasileira de percussão.
O som se afinou com a dança afro que deu vida a números como Seca tatu (Ilessi, 2024) e Um baobá e eu (Sylvio Fraga, Marcelo Galter e Thiago Amud, 2024). Ficou claro que a gravadora Rocinante – personificada por Sylvio Fraga, diretor da empresa a quem Ilessi fez especial agradecimento no palco – investiu no show Atlântico negro, valorizando esse momento luminoso da trajetória de Ilessi.
Entre evocações de Elis Regina e Clementina de Jesus, Ilessi assinalou a própria identidade na cena arrebatadora do show Atlântico negro.
Ilessi canta música de Vital Farias (1943 – 2025) com a mãe Sebastiana no bis do show ‘Atlântico negro’
Rodrigo Goffredo
Ilessi na estreia nacional do show ‘Atlântico negro’ no Teatro Rival Petrobras, na cidade do Rio de Janeiro (RJ)
Rodrigo Goffredo
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