Moradores de bairro alagado invadem escola durante aula para se abrigar em Rio Branco: ‘Saí para sobreviver com meus filhos’


Bairro Ayrton Senna, na Baixada da Sobral, é um dos atingidos pela cheia do Rio Acre. Segundo a direção da escola, moradores chegaram ao local em horário de aula, e a polícia chegou a ser acionada, mas não compareceu. Escola Ayrton Senna, na região da Baixada da Sobral, em Rio Branco
Melícia Moura/Rede Amazônica Acre
Moradores do bairro Ayrton Senna, na Baixada da Sobral, em Rio Branco, invadiram a escola de mesmo nome para se abrigar por conta da alagação provocada pelo Rio Acre. São pelo menos 89 pessoas, entre homens, mulheres, idosos e crianças que levaram parte de seus pertences e permanecem no local.
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A direção da escola informou que os moradores compareceram em horário de aula e pediram para se abrigar, ao que a diretora negou. Os moradores insistiram, e a polícia foi acionada, mas informou que não poderia intervir, e os moradores permaneceram.
“A Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes informa que tomou conhecimento das famílias atingidas pela alagação que procuraram a escola para abrigo, infelizmente, sem o devido planejamento e organização necessários, estando a escola em plena atividade, no momento. A situação foi repassada para a Defesa Civil do município, que é a responsável pelos abrigos, mesmo os que estão instalados em escolas estaduais, para as devidas providências”, disse ao g1.
De acordo com o empresário Madson Moura, um dos moradores abrigados no local, o grupo chegou a procurar o estado para pedir apoio, como fornecimento de alimentação e determinação de um local para funcionar como abrigo.
Segundo ele, a resposta dada pelo estado foi que eles teriam que ser levados para o abrigo montado no Parque de Exposições Wildy Viana, o maior construído na capital. Porém, os moradores se recusam a ir para esse abrigo por temerem pela segurança no local.
O g1 entrou em contato com a Secretaria de Estado de Educação (SEE) e aguarda retorno até esta publicação.
“Como a gente estava precisando de um lugar para ficar, tivemos que pedir ao governo, ao estado e às nossas autoridades, e eles não nos deram nenhuma medida cabível para que viesse nos ajudar. Nós tivemos que, por meio próprio, adentrar nesse colégio e trazer nossas famílias porque não podíamos ficar dentro da água. Já estamos há oito dias dentro de água. O governo quer nos levar para o Parque de Exposições, e tem mais de 700 famílias lá dentro, e está acontecendo roubo, está acontecendo um monte de coisa lá. Aqui [na escola] nós estamos próximos às nossas casas, nós estamos próximos à nossa comunidade, e podemos visitar nossas casas, por mais que nós estejamos dentro de água. E aqui foi onde nós podemos trazer nossas crianças para se livrar dessa água”, explicou.
Empresário Madson Moura diz que moradores não querem ir para abrigo no Parque de Exposições
Melícia Moura/Rede Amazônia Acre
Atualmente, 1.876 pessoas estão abrigadas no Parque de Exposições. A capital acreana tem ainda 2.431 pessoas abrigadas em escolas.
Ainda na região da Sobral, a Superintendência de Transportes e Trânsito de Rio Branco (RBTrans) interditou ruas por conta da alagação. Em entrevista à Rede Amazônica na manhã desta sexta-feira (01), o diretor de trânsito, Elton Dantas, explica que a interdição é necessária para evitar acidentes e transtornos no trânsito.
Escola Ayrton Senna em Rio Branco
Melícia Moura/Rede Amazônica Acre
Outra moradora abrigada na escola invadida é a dona de casa Maria de Fátima Martins, que está no local com seus seis filhos. Ela conta que teve medo de permanecer em casa, pois durante a enchente do ano passado uma das crianças caiu na água.
“Vim da minha casa para cá porque, minha casa não tem como ficar, já está debaixo d’água. A água lá já está com média e altura dentro da minha casa. Então, eu tive que vir com o resto das famílias que estão aqui, porque nós não íamos ficar com as crianças dentro d’água. Deus me livre, até morrer afogada, uma criança. Porque, assim, o ano passado, o meu pequeno caiu na água, ia morrendo. Esse ano tinha que fazer o quê? A gente pediu ajuda. Ninguém nos ajudou”, avaliou.
Maria de Fátima Martins
Melícia Moura/Rede Amazônica Acre
Enquanto permanece no local, Maria diz que espera que os moradores recebam apoio, pois a maioria está sem trabalhar e passa por dificuldades financeiras. Ela é beneficiária do Bolsa Família, e diz que vai ter prejuízos com a perda de móveis e eletrodomésticos que não conseguiu tirar de casa.
“Tudo nós temos que tirar do nosso bolso, o alimento. Se nós quisermos comer, queremos dar comida para esses meninos, da onde que nós vamos tirar? Sem trabalhar. Eu nem recebi meu Bolsa Família, que é o que eu vivo dele, não fui receber ainda. Aliás, a metade dessa família aqui, que tá aqui, né, a gente quase tudo, ninguém tá trabalhando. Porque nós estamos sem condições. Eu deixei metade das minhas coisas que eu não tinha condições de trazer. Meu fogão está dentro d’água, a minha geladeira deixei, também dentro d’água. Saí para sobreviver com meus filhos”, acrescentou.
Colaborou Melícia Moura, da Rede Amazônica Acre.
VÍDEOS: g1

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